gulosa
E comia. e comia e comia e comia e comia. Olhava para as fotos e não se reconhecia. O espelho era pela metade e só a metade ele mostrava. Não cabia dentro da imagem refletida. Na verdade, não comia nada. Mas o pouco que comia era suficiente para sentir o tornozelo inchando e ver os braços cada vez mais longos. Quase como Alice que depois de um singelo pedaço de bolo ficou tão grande que tomou o espaço da casa inteira. Sentia suas pernas alongando e saindo pelas janelas. Olhava para as fotos e pensava: esse é o meu tamanho? Eu sou tão grande assim? Mas se eu sou tão grande, por que me sinto tão pequena? Andava pela rua e sabia que estava chamando atenção. Tentava se esconder. Não conseguia. Cada passo que dava percebia seus peitos balançando de um lado para o outro, sentindo todos os olhares virando para lhe encarar. Andava correndo de cabeça abaixada tentando não chamar a atenção, mas era tão grande que tinha que se espremer para passar pelos espaços e ter cuidado para não trombar com as pessoas. Queria sumir. Desaparecer. E comia e comia e comia.
Tentava se diminuir de todos os jeitos. Dieta, academia, cardio 3x na semana. Eu não sou boa o suficiente. Eu sou uma impostora. Não mereço o que eu tenho.
E quanto mais se diminuia, mais crescia. Não cabia dentro de si. Transbordava por onde passava sem conseguir saber onde despejar tudo o que havia comido. Tanta coisa dentro de si que fazia os dedos doerem de tão inchados que ficavam e a gengiva ardia querendo rasgar com sangue por todas as mordidas que foram dadas. E comia e comia e comia e engolia tudo e dentro do seu peito crescia um orgulho que não era mais nem bonito. Era grande demais.
Não tinha como esconder o que já estava exposto. Podia tentar enganar, mas enganando comia o alimento já estragado e vencido somente por medo de jogar fora. E dentro de si, crescia ainda mais. Não podia mais tentar enganar porque era tão grande que todos estavam vendo.
Eu sou grande! Tenho que ser grande! Precisava alongar seus membros antes que atrofiasse. Não havia uma bebida mágica para dissolver tudo que havia acumulado enquanto comia, que a faria diminuir que nem Alice no país das maravilhas. Precisava de um balde para vomitar tudo que estava entalado, antes que saísse derramando para cima de outras pessoas. Já era grande - todo mundo via que era grande. Não precisava sujar os outros com o que não conseguiu digerir.
Mas não tinha como carregar o balde sozinha. Ou engolia o vômito empurrando para baixo com mais comida, ou pedia ajuda para conseguir exprimir de dentro de si, alguém para segurar seus cabelos, alguém para oferecer a toalha, alguém para dizer que vai ficar tudo bem, já estava na hora de botar para fora.
Sabia que não iria diminuir. Mesmo que despejasse tudo, continuaria sendo grande. Ainda que explodisse, todas suas tripas pintariam a parede. Era grande e grande seria. E continuaria a comer.